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Poeshydra

Atualizado: 21 de jun.

Poesia desmedida e sob medida por duas manas escritas

Por Lívia Mota e Natália Moreti



Geneticamente ligadas, naturalmente conectadas. Temos a mesma linhagem, traços similares. Há quem confunda numa rápida passada de olho. Gêmeas? Não. Almas gêmeas, sim. Entre tantas “parecidices”, uma tem um poder mais forte de nos unir: a escrita. Da escrita marcada na pele, como tatuagem, nasceu nossa terceira versão. O Manas Escritas foi concebido numa sala de estar, com cerveja e as duas jogadas no sofá. Sem pretensão, mas com intenção.

Acreditamos na palavra que, como cada um de nós, tem aura e tem alma. Ordenadas e combinadas, chacoalham. Numa brincadeira, gargalham. Num golpe, incomodam. As palavras, sempre elas. As nossas são destinadas a pulsar pelo afeto. Escrevemos para afetar o outro e a nós mesmas. Colocamos no papel aquilo que canta, grita e sussurra. Dentro e fora. Na Lívia, Na Natália, na Maria, no Felipe, na Ana, no Caio. Para quem quer dizer, nós falamos por escrito.

Nossa miçanga de letras também mostra a cara. Mostra lado. Contra o que for contra a liberdade de ser e existir. Contra rompantes de assédio, de ódio, de ausências de sentido e de humanidade. Nosso golpe é contra tudo que pretende definir, cercar, cercear, alienar. Com palavras em punho, a quatro punhos, estamos sempre prontas a criar e a rimar versos no feminino, carregados de resistência e existência. Feministas, escritas e borradas pela água que cai na tinta. Nosso tear de palavras conta histórias e também faz histórias.


Poemas

Alma depravada

Abri a porta e entrei

Nada vi

Porque nada havia ali

Além de mim

Do que fui e do que era

Do queria e do que fugia

O vazio era todo eu

Numa tentativa infeliz

De assombrar

Me satisfez

Foi tudo

O mais profundo

Que eu pude entrar

E no escuro do mundo

Do meu mundo

Soube que na ausência

De qualquer espécie, matéria

Ou vértebra

Estava eu, bruta, pura.

Uma puta-vácuo com alma.

Eu, universo

Em mim vivem células, bactérias

moléculas, tecidos, músculos

pele, órgãos

Sou feita de líquido, massa

mente, alma

Sou gigante para uma formiga

Pequena para um arranha-céu

Minúscula para todo esse céu

Carrego vida, ciclos, ecossistemas

Vivo em mutação

Me sinto só

Meu mundo guarda a via láctea

Minhas dores, dúvidas, dilemas são enormes

Só até eu olhar pra cima e te ver

Ver uma parte da sua imensidão

Tudo despenca mesmo com a força da gravidade

Tudo em mim se aglutina pedindo calma

Olha só

Você aí com suas eras

Poeira, buracos, estrelas

Faz sumir minha descrença de que é isso

Só isso

Me faz ver que sou gota

Quando acho que sou a tempestade

Com você, metros são anos-luz

Seu tempo, que é nosso,

Passa tão despercebido

Mas ele é quem é o maestro

Rápido e lento

Longe e perto

Quente e frio

Vivo ou morto

Inteligente ou primitivo

Quem é que sabe o que é o quê?

A inexatidão é assustadora

Para quem tem mania da definição

Mas não me assusta tanto quanto me fascina

Olho para cima

Olho para dentro

E vejo que eu estou em você

E que você cabe em mim

Então, eu universo

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